{"id":59634,"date":"2016-10-14T10:38:12","date_gmt":"2016-10-14T13:38:12","guid":{"rendered":"https:\/\/auxcamp.salesianossp.org.br\/?p=59634"},"modified":"2016-10-14T10:38:12","modified_gmt":"2016-10-14T13:38:12","slug":"papa-francisco-em-lund-um-grande-passo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/papa-francisco-em-lund-um-grande-passo\/","title":{"rendered":"\u201cPapa Francisco em Lund? Um grande passo\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/i68.tinypic.com\/2m818d5.jpg\" \/>No pr\u00f3ximo dia 31 de outubro, o Papa Francisco vai viajar para Lund, na Su\u00e9cia, e vai participar da cerim\u00f4nia conjunta luterano-cat\u00f3lica para comemorar o 500\u00ba anivers\u00e1rio da Reforma. Como se l\u00ea no comunicado redigido pela Federa\u00e7\u00e3o Luterana Mundial e pelo Pontif\u00edcio Conselho para a Promo\u00e7\u00e3o da Unidade dos Crist\u00e3os, \u201co evento pretende evidenciar os 50 anos de cont\u00ednuo di\u00e1logo ecum\u00eanico entre cat\u00f3licos e luteranos e os dons resultantes dessa colabora\u00e7\u00e3o. A comemora\u00e7\u00e3o gira em torno dos temas da a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, da penit\u00eancia e do compromisso no testemunho comum. O objetivo \u00e9 expressar os dons da Reforma e pedir perd\u00e3o pela divis\u00e3o perpetuada pelos crist\u00e3os das duas tradi\u00e7\u00f5es\u201d.<br \/>\nNa imin\u00eancia desse acontecimento, dirigimos algumas perguntas a Paolo Ricca, 80 anos, te\u00f3logo e pastor valdense, professor em\u00e9rito da Faculdade Valdense de Teologia e professor convidado do Pontif\u00edcio Ateneu Sant\u2019Anselmo de Roma. Generosamente comprometido com o di\u00e1logo ecum\u00eanico h\u00e1 d\u00e9cadas, ele dirige uma cole\u00e7\u00e3o de obras escolhidas de Lutero para a editora Claudiana de Turim.<br \/>\n<strong>Que significado tem a participa\u00e7\u00e3o do Papa Francisco na comemora\u00e7\u00e3o de Lund?<\/strong><br \/>\nEu considero a sua participa\u00e7\u00e3o como um fato muito bonito, importante. Acima de tudo, porque \u00e9 a primeira vez que um papa comemora a Reforma. Isso, na minha opini\u00e3o, \u00e9 um passo \u00e0 frente em rela\u00e7\u00e3o aos marcos significativos que foram alcan\u00e7ados com o Conc\u00edlio Vaticano II, que \u2013 incluindo nos seus textos e, assim, valorizando alguns princ\u00edpios e temas fundamentais da Reforma \u2013 marcou uma virada decisiva nas rela\u00e7\u00f5es entre cat\u00f3licos e protestantes. Participar na comemora\u00e7\u00e3o, como o sumo representante da Igreja Cat\u00f3lica se prepara para fazer, significa, na minha opini\u00e3o, considerar a Reforma como um evento positivo na hist\u00f3ria da Igreja, que tamb\u00e9m fez bem ao catolicismo. A participa\u00e7\u00e3o na comemora\u00e7\u00e3o \u00e9 um gesto de grande relev\u00e2ncia, at\u00e9 porque o papa se dirige para Lund, na casa dos luteranos, como se fosse algu\u00e9m da fam\u00edlia. A minha impress\u00e3o \u00e9 de que ele, de um modo que eu n\u00e3o saberia definir, tamb\u00e9m se sente parte daquela por\u00e7\u00e3o de cristandade que nasceu da Reforma.<br \/>\n<strong>Qual foi e poder\u00e1 ser, no futuro, a contribui\u00e7\u00e3o do Papa Francisco para o caminho rumo \u00e0 unidade dos crist\u00e3os?<\/strong><br \/>\nParece-me que a principal contribui\u00e7\u00e3o oferecida por ele em vista da unidade \u00e9 o seu esfor\u00e7o de reinventar o papado, ou seja, a busca de um modo novo e diferente de entender e viver o minist\u00e9rio do bispo de Roma. Essa busca \u2013 supondo que a minha leitura acerta, ao menos um pouco, no alvo \u2013 poderia levar muito longe, porque o papado \u2013 pelo modo em que foi entendido e vivido nos \u00faltimos 1.000 anos \u2013 \u00e9 um dos grandes obst\u00e1culos para a unidade dos crist\u00e3os. Parece-me que o Papa Francisco est\u00e1 se movendo para um modelo de papado diferente do tradicional, em rela\u00e7\u00e3o ao qual as outras Igrejas crist\u00e3s poderiam assumir posi\u00e7\u00f5es novas. Se assim for, esse tema poderia ser completamente repensado em \u00e2mbito ecum\u00eanico.<br \/>\n<strong>Quais foram as passagens mais significativas do di\u00e1logo cat\u00f3lico-luterano realizada nos \u00faltimos 50 anos?<\/strong><br \/>\nHouve acordos muito importantes: acima de tudo, a \u201cDeclara\u00e7\u00e3o Conjunta sobre a Doutrina da Justifica\u00e7\u00e3o\u201d, que remonta a 1999, na qual aparece tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o de uma nova f\u00f3rmula de entendimento ou de pacto entre as Igrejas, o \u201cconsenso diferenciado\u201d, que eu considero particularmente interessante. Essa express\u00e3o significa que se chegou a um acordo sobre os fundamentos da doutrina e que, ao mesmo tempo, permanecem diferen\u00e7as que, no entanto, n\u00e3o afetam a realidade do acordo alcan\u00e7ado sobre esse tema espec\u00edfico. Infelizmente, por\u00e9m, esse acordo ainda n\u00e3o trouxe os frutos que muitos esperavam, provavelmente porque, enquanto para os luteranos a doutrina da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 \u00e9 a estrela-guia que molda e guia toda a vis\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre Deus e o ser humano, ela n\u00e3o possui um papel t\u00e3o central no catolicismo.<br \/>\nHouve outros acordos significativos, por exemplo o da Eucaristia, embora ele n\u00e3o tenha produzido mudan\u00e7as substanciais, tanto que hoje, oficialmente, a Igreja Cat\u00f3lica(assim como as Igrejas ortodoxas) n\u00e3o autoriza a hospitalidade eucar\u00edstica aos protestantes, embora, na realidade, muitas vezes ela seja praticada. Sem d\u00favida, o clima novo que foi criado ao longo dos \u00faltimos 50 anos tem um grande valor: n\u00e3o estamos mais \u201cuns contra os outros armados\u201d, mas h\u00e1 um interc\u00e2mbio bonito, a partilha em comum dos dons que cada um pode ter recebido de Deus e dos problemas que, como Igreja, devemos enfrentar na presen\u00e7a dos muitos dramas da sociedade atual e do fen\u00f4meno de uma seculariza\u00e7\u00e3o galopante.<br \/>\n<strong>O senhor acha que os dramas, as dificuldades e os sofrimentos dos homens e das mulheres do nosso tempo podem constituir um est\u00edmulo, uma solicita\u00e7\u00e3o para a recomposi\u00e7\u00e3o da unidade?<\/strong><br \/>\nAs circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas podem solicitar e favorecer um caminho mais r\u00e1pido para a unidade: prova disso s\u00e3o algumas iniciativas que protestantes e cat\u00f3licos promoveram juntos para enfrentar, unidos, os problemas da contemporaneidade. No entanto, eu penso que, se a comunh\u00e3o n\u00e3o nascer da f\u00e9, da esperan\u00e7a e do amor (ou seja, das realidades espirituais profundas que constituem o n\u00facleo do cristianismo), ela vai acabar sendo fraca ou desmoronando quando os problemas que a suscitaram forem resolvidos. Por isso, \u00e9 preciso trabalhar com paci\u00eancia sobre a dimens\u00e3o espiritual, porque s\u00f3 desse modo \u00e9 poss\u00edvel construir uma comunh\u00e3o duradoura.<br \/>\n<strong>No continente europeu, quais s\u00e3o, na sua opini\u00e3o, as iniciativas mais interessantes lan\u00e7adas em conjunto por cat\u00f3licos e protestantes?<\/strong><br \/>\nEntre as iniciativas mais significativas, est\u00e3o os Conselhos das Igrejas Crist\u00e3s que, na It\u00e1lia, foram constitu\u00eddos em algumas cidades, por exemplo em Mil\u00e3o e em Veneza. Esses conselhos, dos quais fazem parte representantes das diversas Igrejas crist\u00e3s, se encontram periodicamente e atuam de muitos modos e em muitas frentes. Em alguns pa\u00edses (n\u00e3o na It\u00e1lia), tamb\u00e9m existem os Conselhos Nacionais das Igrejas Crist\u00e3s: eu acho que essa \u00e9 a iniciativa mais relevante, assim como os encontros promovidos pela Confer\u00eancia das Igrejas Europeias (que re\u00fane as Igrejas protestantes e ortodoxas) e pelo Conselho das Confer\u00eancias Episcopais Cat\u00f3licas da Europa. Esses dois \u00f3rg\u00e3os organizaram assembleias comuns de grande interesse e valor ecum\u00eanico. Eu participei de dois encontros, em Basileia e em Graz. Todo o cristianismo europeu se encontrou reunido. Tenho uma recorda\u00e7\u00e3o muito bonita deles.<br \/>\n<strong>Na sua opini\u00e3o, os fi\u00e9is cat\u00f3licos e protestantes sentem a divis\u00e3o da Igreja como uma ferida?<\/strong><br \/>\nEm geral, eu diria que n\u00e3o. Em todas as Igrejas, o tema da unidade dos crist\u00e3os \u00e9 sentido apenas por algumas minorias. A divis\u00e3o \u00e9 uma ferida grave, uma infidelidade objetiva da qual poucos t\u00eam consci\u00eancia real. A maioria dos crist\u00e3os considera-a simplesmente um fato desprovido de consequ\u00eancias reais sobre a sua vida de f\u00e9. Mas as consequ\u00eancias existem. Quando os crist\u00e3os de confiss\u00f5es diferentes vivem uns ao lado dos outros, sem ter nem buscar qualquer rela\u00e7\u00e3o entre eles, isso significa que eles se sentem crist\u00e3os autossuficientes, que bastam a si mesmos para realizar a plenitude do cristianismo. Essa \u00e9 uma ilus\u00e3o! O crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 e nunca pode se considerar autossuficiente. Aqui somos socorridos pela bel\u00edssima par\u00e1bola do corpo de Cristo proposta por S\u00e3o Paulo na Primeira Carta aos Cor\u00edntios (12, 12-26). Assim como o olho precisa da m\u00e3o, e a cabe\u00e7a, dos p\u00e9s, assim tamb\u00e9m cada crist\u00e3o precisa n\u00e3o s\u00f3 do outro semelhante a si mesmo, mas tamb\u00e9m daquele que \u00e9 diferente de si mesmo: essa diversidade \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o da obra do Esp\u00edrito, que suscita multiplicidade e variedade de dons. O cristianismo \u00e9 um fato plural, e, nesse sentido, a multiplicidade e diversidade das Igrejas \u00e9 algo normal. O que \u00e9 anormal \u00e9 a divis\u00e3o. A diversidade \u00e9 crist\u00e3, a divis\u00e3o, n\u00e3o. Portanto, \u00e9 preciso superar a divis\u00e3o sem apagar a diversidade.<br \/>\n<strong>No documento \u201cDo conflito \u00e0 comunh\u00e3o\u201d, redigido pela Comiss\u00e3o Internacional Cat\u00f3lico-Luterana em 2013, afirma-se: \u201cEm 2017, devemos confessar abertamente que somos culpados diante de Cristo por termos rompido a unidade da Igreja. Este ano jubilar nos apresenta dois desafios: a purifica\u00e7\u00e3o e a cura das mem\u00f3rias, e a restaura\u00e7\u00e3o da unidade dos crist\u00e3os de acordo com a verdade do Evangelho de Jesus Cristo\u201d. De que forma o senhor acha que esses compromissos v\u00e3o se traduzir?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o saberia dizer como esses compromissos poder\u00e3o se traduzir nos pa\u00edses individuais. Certamente, s\u00e3o objetivos que n\u00e3o ser\u00e3o alcan\u00e7ados dentro de um ano: trata-se de processos que levar\u00e3o d\u00e9cadas. A \u201cpurifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d \u00e9 uma passagem sobre a qual devemos nos entender: purificar n\u00e3o significa esquecer o passado, nem domesticar a hist\u00f3ria, mas rel\u00ea-la juntos. Essa opera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o nova e indispens\u00e1vel, porque, at\u00e9 hoje, cat\u00f3licos e protestantes a releram cada um por conta pr\u00f3pria. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade da Igreja, eu acho que o passo decisivo ou, melhor, a premissa necess\u00e1ria para qualquer outro passo \u00e9 o reconhecimento \u2013 por parte da Igreja Cat\u00f3lica e das Igrejas ortodoxas \u2013 das comunidades protestantes como Igrejas de Jesus Cristo, e n\u00e3o s\u00f3 como \u201ccomunidades eclesiais\u201d, para usar a express\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II. Essa falta de reconhecimento \u00e9, para todos n\u00f3s, filhos da Reforma, uma ferida dolorosa.<br \/>\n<strong>Com que sentimentos o senhor se prepara para viver a comemora\u00e7\u00e3o da Reforma?<\/strong><br \/>\nEu tenho 80 anos. Acima de tudo, sou grato a Deus por ter chegado a este encontro. Eu considero que a Reforma foi uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para muitos: para n\u00f3s, mas tamb\u00e9m para todo o cristianismo e para a Igreja Cat\u00f3lica. Eu acho que dificilmente \u2013 sem a Reforma \u2013 o catolicismo teria sido capaz de formular um projeto de reforma pr\u00f3pria: o Conc\u00edlio de Trento n\u00e3o produziu apenas a Contrarreforma, mas tamb\u00e9m a reforma tout court. Eu comemoro e celebro esse anivers\u00e1rio porque a Reforma deu origem a um novo tipo de cristianismo, a um repensamento original da f\u00e9: n\u00e3o foi uma reforma da existente, mas a cria\u00e7\u00e3o de uma nova articula\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno crist\u00e3o, que conservou o seu cora\u00e7\u00e3o antigo, o cora\u00e7\u00e3o b\u00edblico. A Reforma criou um novo modelo de Igreja crist\u00e3 e um novo modo de se situar, como Igreja, na sociedade. Tamb\u00e9m poder\u00edamos falar, sem cair na ret\u00f3rica hagiogr\u00e1fica, de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o. Se eu olho para o futuro do di\u00e1logo ecum\u00eanico, eu sou otimista: n\u00e3o nos homens ou nas Igrejas, mas em Deus, porque Ele fez maravilhas nesses \u00faltimos 50 anos. O grande problema a ser resolvido continua sendo, na minha opini\u00e3o, o do poder, que ningu\u00e9m quer perder. Ser\u00e1 preciso repensar o poder na Igreja, nas Igrejas e entre as Igrejas.<br \/>\n<em>Por Vatican Insider via Aleteia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1logo cat\u00f3lico-luterano<\/p>\n","protected":false},"author":59,"featured_media":59639,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[304,3274,3835,5957,5963,7180,77,8051,10020],"class_list":["post-59634","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-500-anos-da-reforma","tag-dialogo","tag-ecumenismo","tag-lund","tag-luteranos","tag-paolo-ricca","tag-papa-francisco","tag-protestantes","tag-viagem"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59634","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/59"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59634"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59634\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59634"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59634"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59634"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}