{"id":72768,"date":"2018-09-13T17:00:06","date_gmt":"2018-09-13T20:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/auxcamp.salesianossp.org.br\/?p=72768"},"modified":"2018-09-13T17:00:06","modified_gmt":"2018-09-13T20:00:06","slug":"dispensando-se-da-prudencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/dispensando-se-da-prudencia\/","title":{"rendered":"Dispensando-se da prud\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter \" src=\"https:\/\/i66.tinypic.com\/2qvz4pg.jpg\" \/><br \/>\nSegundo S\u00e3o Tom\u00e1s, a prud\u00eancia \u00e9 a condutora das virtudes morais e ele mesmo a define como a \u201crecta ractio agibilium\u201d, \u201ca reta raz\u00e3o no agir\u201d.<br \/>\nUm dos motivos que me levou a escrever essa breve s\u00e9rie sobre os pseudo-escrupulosos foi a compreens\u00e3o para com v\u00e1rios irm\u00e3os sacerdotes que ultimamente se t\u00eam queixado justamente desse problema.<br \/>\nUm dia desses, um me dizia: \u201co que eu fa\u00e7o?, um rapaz me mandou um \u00e1udio de meia-hora pelo WhatsApp, angustiado por conta de uma quest\u00e3o moral insignificante\u201d. Outro colega me reclamou: \u201cpassei quarenta e cinco minutos ao telefone, resolvendo a d\u00favida moral de uma pessoa, sendo que o caso era de simples solu\u00e7\u00e3o, mas, quanto mais eu explicava, mais ela complicava\u201d. As reclama\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas, desde pessoas que mandam cont\u00ednuas e longas mensagens pelas redes sociais at\u00e9 aquelas que procuram desesperadamente o padre v\u00e1rias vezes no mesmo dia, sempre com \u201curg\u00eancia\u201d.<br \/>\nUm dos agravantes para a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que frequentemente encontram pessoas que, ao contr\u00e1rio de as ajudarem a sair desse estado mental, ajudam-nas a aprofundar o problema, alegando que o fulano \u00e9 de uma sutileza impressionante ou que \u00e9 de uma capacidade de penetra\u00e7\u00e3o agud\u00edssima. Por fim, respaldadas por tais orientadores, as criaturas v\u00e3o se sentindo importantes, especiais, inteligentes, a vaidade se vai inflando e a pessoa vai enlouquecendo, n\u00e3o sem antes enlouquecer meia-d\u00fazia de pessoas, inclu\u00eddo a\u00ed o pobre confessor.<br \/>\nEssas pessoas acabam por substituir a prud\u00eancia pela consulta cont\u00ednua acerca dos temas mais banais, elevados sempre \u00e0 categoria de princ\u00edpios. Dispensam-se de ser prudentes e criam uma depend\u00eancia ansiosa, perdendo completamente a chance de formar a sua pr\u00f3pria raz\u00e3o pr\u00e1tica.<br \/>\nS\u00e3o Tom\u00e1s dizia que a prud\u00eancia \u00e9 a \u201creta raz\u00e3o no agir\u201d. Para mim, este \u00e9 o primeiro problema. As pessoas n\u00e3o entendem que a moral \u00e9 uma ci\u00eancia pr\u00e1tica, com uma metodologia pr\u00e1tica.<br \/>\nN\u00e3o adianta estudar moral e n\u00e3o desenvolver a intelig\u00eancia pr\u00e1tica. Dou um exemplo ilustrativo: de pouco adianta voc\u00ea estudar livros de culin\u00e1ria de todos os pa\u00edses e nunca passar um dia na cozinha; no final, voc\u00ea saber\u00e1 tudo sobre culin\u00e1ria, mas, diante de uma multid\u00e3o de ingredientes, de um fog\u00e3o de cinco bocas, de sete panelas, forno, \u00e1gua, microondas e oito convidados cheios de fome voc\u00ea se sentir\u00e1 perdido e desorientado, vai queimar a comida e colocar tudo a perder, por fim, ir\u00e3o todos para o self-service do shopping.<br \/>\n\u00c9 isso que acontece com boa parte dos \u201corientadores\u201d morais e desses falsos escrupulosos. Muitas vezes, por um defeito mental, esses sujeitos s\u00e3o muito te\u00f3ricos: sabem lidar com livros, mas n\u00e3o com pessoas; tentam formar seres humanos como quem escreve sobre um papel, sem perceberem que o homem n\u00e3o foi criado para se encaixar numa tese, ele precisa praticar o bem entendendo-o profundamente para conseguir perceber que o bem \u00e9 bom mesmo.<br \/>\nIsso se percebe na pr\u00f3pria arquitetura com que S\u00e3o Tom\u00e1s escreveu a Suma Teologica. As duas partes centrais dessa obra s\u00e3o relativas \u00e0 moral fundamental (primeira se\u00e7\u00e3o da segunda parte) e \u00e0 moral especial (segunda se\u00e7\u00e3o da segunda parte).<br \/>\nNa primeira se\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Tom\u00e1s recome\u00e7a metodologicamente o seu racioc\u00ednio. Partindo da considera\u00e7\u00e3o do fim \u00faltimo do homem, ele mostra como para o homem, criatura racional, \u201c\u00e9 necess\u00e1rio chegar \u00e0 bem-aventuran\u00e7a por alguns atos\u201d, ent\u00e3o, estuda \u201cos atos humanos, afim de que saibamos com que atos se chega \u00e0 bem-aventuran\u00e7a ou quais impedem o caminho para ela\u201d. Da\u00ed parte para a considera\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios destes atos, \u201cprimeiro, os princ\u00edpios intr\u00ednsecos; segundo, os princ\u00edpios extr\u00ednsecos. Os princ\u00edpios intr\u00ednsecos s\u00e3o a pot\u00eancia e o h\u00e1bito\u201d, sendo que os h\u00e1bitos bons s\u00e3o as virtudes e os maus s\u00e3o os v\u00edcios, que lhe s\u00e3o opostos; em seguida, considera \u201cos princ\u00edpios exteriores dos atos. O princ\u00edpio exterior que inclina exteriormente ao mal \u00e9 o diabo. J\u00e1 o princ\u00edpio exterior que move exteriormente ao bem \u00e9 Deus, que nos instrui pela lei e ajuda pela gra\u00e7a\u201d. A\u00ed est\u00e1 toda a arquitetura da primeira se\u00e7\u00e3o da segunda parte. A segunda se\u00e7\u00e3o tratar\u00e1 de cada uma das virtudes e dos v\u00edcios.<br \/>\nEm outras palavras, S\u00e3o Tom\u00e1s n\u00e3o explica a Teologia Moral atrav\u00e9s da considera\u00e7\u00e3o te\u00f3rica das leis morais, ele vai \u00e0 raiz das nossas pr\u00f3prias pot\u00eancias operativas e as enxerga a partir da raz\u00e3o pr\u00e1tica, extraindo delas a sua pr\u00f3pria orienta\u00e7\u00e3o racional para o seu bem equivalente, que s\u00e3o as virtudes. Por isso, a prud\u00eancia \u00e9 a \u201creta raz\u00e3o no agir\u201d e n\u00e3o na considera\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, pois, para isso, existe a raz\u00e3o especulativa.<br \/>\n\u00c0s vezes, vejo algu\u00e9m especulando sobre a moralidade de uma a\u00e7\u00e3o de modo t\u00e3o te\u00f3rico que me parece quase irrealiz\u00e1vel na pr\u00e1tica. A a\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser considerada desse modo a posteriori, fotograficamente, com quem analisa a cena de um filme, a n\u00e3o ser que o agente seja um moralista muito bem treinado. De fato, isso vai muito bem para os confessores, mas n\u00e3o vai bem para praticar ao longo da vida. Ensin\u00e1-lo desse modo a calouros n\u00e3o \u00e9 ajud\u00e1-los, mas apenas aumentar a sua inseguran\u00e7a e perplexidade.<br \/>\nDo mesmo modo, treinar as pessoas para raciocinarem a partir das leis, abstratamente, n\u00e3o \u00e9 formar a sua prud\u00eancia, mas, de certo modo, impedi-la. Por isso, essas pessoas ficam perplexas e desesperadas, porque n\u00e3o est\u00e3o aprendendo a ser virtuosas, mas apenas a cumprirem preceitos abstratamente apreendidos.<br \/>\nPor isso, a exposi\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Tom\u00e1s \u00e9 \u00e0 partir das virtudes, porque, diante desse objetivo, fica muito mais claro o fim pr\u00e1tico da conduta humana.<br \/>\nQuando se raciocina abstratamente a partir da lei, a mente fica como que em suspense, carente de entender o fundamento racional dessa lei. Por exemplo, quando se raciocina a partir do dever de \u201chonrar os pais\u201d e da\u00ed se extraem as obriga\u00e7\u00f5es concretas decorrentes, o intelecto se pergunta implicitamente o porqu\u00ea de \u201chonrar os pais\u201d, buscando o verdadeiro princ\u00edpio racional que est\u00e1 por tr\u00e1s desse mandamento. A resposta para essa pergunta s\u00f3 pode ser entendida a partir da \u201craz\u00e3o de virtude\u201d que lhe d\u00e1 suporte: n\u00f3s temos para com os nossos pais deveres de justi\u00e7a que s\u00e3o impag\u00e1veis e, por isso, devemos-lhes certa venera\u00e7\u00e3o; ora, a formula\u00e7\u00e3o positiva desta \u00e9 o mandamento de honr\u00e1-los, a lei.<br \/>\nNotem que S\u00e3o Tom\u00e1s extrai a lei das virtudes, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Em outras palavras, na medida em que o homem aprende a praticar o bem percebe que este \u00e9 verdadeiramente bom, ou seja, que \u00e9 racional, que \u00e9 l\u00f3gico, que \u00e9 lei.<br \/>\nO homem virtuoso n\u00e3o \u00e9 aquele que simplesmente pratica o bem porque \u00e9 l\u00edcito e evita o mal porque \u00e9 il\u00edcito, ele realmente \u00e9 prudente, ele sabe que o bem \u00e9 bom e o ama.<br \/>\nQuando descreve as partes que integram a prud\u00eancia (cf. I-II, q. 49), que s\u00e3o como os elementos a partir dos quais ela est\u00e1 constru\u00edda, S\u00e3o Tom\u00e1s mostra como ela requer um verdadeiro exerc\u00edcio pr\u00e1tico-intelectual: \u00e9 necess\u00e1rio desenvolver a mem\u00f3ria (1) de experi\u00eancias morais muito bem vividas, sobre as quais a intelig\u00eancia (2) se aplica para apreender sua l\u00f3gica profunda, de modo que pela docilidade (3) a pessoa se v\u00e1 ajustando \u00e0 realidade e aprenda a ter sagacidade (4), isto \u00e9, certa perspic\u00e1cia moral, e raciocine (5) concretamente sobre suas a\u00e7\u00f5es, exercendo previs\u00e3o (6) sobre as suas consequ\u00eancias, circunspec\u00e7\u00e3o (7) para analisar a sua conveni\u00eancia moral relativamente \u00e0s circunst\u00e2ncias e cautela (8) quanto aos poss\u00edveis males eventualmente decorrentes de sua a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs pseudo-escrupulosos, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o querem p\u00f4r a sua cabe\u00e7a para funcionar, querem um \u201cmanual do escoteiro mirim\u201d, querem um gur\u00fa que esteja sempre \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, querem todas as respostas prontas em um livro. O melhor dos mundos para eles seria um aplicativo em que simplesmente perguntariam e obteriam a resposta, sem perceberem que, assim, estariam apenas atrofiando a sua capacidade de ser prudentes.<br \/>\nOs escrupulosos verdadeiros s\u00e3o pessoas incapazes de prud\u00eancia, e o reconhecem com humildade e docilmente, esses pseudo-escrupulosos, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o pregui\u00e7osos, inconvenientes, infantis e arrogantes.<br \/>\nAconselho aos irm\u00e3os no sacerd\u00f3cio que n\u00e3o alimentem nada disso: n\u00e3o atendam a telefonemas intermin\u00e1veis e n\u00e3o respondam a mensagens inoportunas, n\u00e3o ou\u00e7am \u00e1udios insuportavelmente gigantes e n\u00e3o leiam mensagens desproporcionalmente longas, atendam no dia marcado, com tempo determinado e n\u00e3o sejam complacentes com este tipo de pessoa. Tratem-nos com firmeza, pois \u00e9 isso que precisam. No atendimento, n\u00e3o deem a resposta que eles facilmente querem, respondam com outras perguntas, fa\u00e7am-nos pensar, mesmo que seja no tranco, e eles come\u00e7ar\u00e3o a desenvolver a prud\u00eancia. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o formaremos adultos virtuosos, mas pessoas psicologicamente fr\u00e1geis, que n\u00e3o conseguem ter desenvoltura moral, mas apenas aquela honestidade formal, de quem cumpre uma regra e que n\u00e3o sabe responder a uma simples pergunta: \u201cpor que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso\u201d?<br \/>\nPor <i>Padre Jos\u00e9 Eduardo de Oliveira<\/i> (Via <i>Aleteia<\/i>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Espiritualidade <\/p>\n","protected":false},"author":59,"featured_media":72770,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[4152,6474,8950,10138],"class_list":["post-72768","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-espiritualidade","tag-moral","tag-sao-tomas","tag-virtudes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/59"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72768"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72768\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}