{"id":80292,"date":"2020-02-27T08:52:59","date_gmt":"2020-02-27T11:52:59","guid":{"rendered":"https:\/\/auxcamp.salesianossp.org.br\/?p=80292"},"modified":"2020-02-27T08:52:59","modified_gmt":"2020-02-27T11:52:59","slug":"como-a-quaresma-revela-a-beleza-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/como-a-quaresma-revela-a-beleza-da-vida\/","title":{"rendered":"Como a Quaresma revela a beleza da vida"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/ibb.co\/cxWFmJx\"><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i.ibb.co\/yVzy30V\/kamil-szumotalski-Bf-Vha-Qcoh9w-unsplash.jpg\" alt=\"kamil-szumotalski-Bf-Vha-Qcoh9w-unsplash\" \/><\/a><br \/>\nN\u00e3o ou\u00e7o programas esportivos com muita frequ\u00eancia, mas aconteceu de t\u00ea-lo no outro dia enquanto dirigia. Foi como se eu tivesse viajado no tempo e estivesse novamente vendo a longa estrada para casa, ladeada por pinheiros e galhos que se estendiam at\u00e9 o horizonte. Podia sentir o cheiro do doce ar do Missouri quando entramos no hospital e senti a m\u00e3o grande do meu av\u00f4 na minha pela \u00faltima vez. A m\u00e3o dele era de um homem leiteiro, um homem que estava pronto para acordar cedo para trabalhar durante horas, m\u00e3os que podiam levantar qualquer peso. Essas mesmas m\u00e3os escreveram notas muito gentis e rom\u00e2nticas para sua esposa. Ele nunca falou sobre esse amor escondido por sua fam\u00edlia, mas era evidente em todas as fibras de seu ser.<br \/>\nEnquanto pensava na maneira como a morte nos perfura como o espinho de uma rosa, meus sentimentos pessoais eram amargos, mas n\u00e3o inconsol\u00e1veis. O que ficou bastante claro para mim \u00e9 que, mais do que tudo, estou profundamente satisfeito simplesmente por ter tido a oportunidade de conhecer e amar meu av\u00f4. Sua vida, como diria a poeta Rainer Maria Rilke, \u201caprofunda o vermelho do meu sangue\u201d. Estranhamente, \u00e9 a aus\u00eancia dele que torna meu amor mais real, mais f\u00e1cil de reconhecer abertamente.<br \/>\nTodos os anos, na Quarta-feira de Cinzas, me vejo celebrando a missa com meus paroquianos. Mais uma vez, eles aceitam avidamente uma b\u00ean\u00e7\u00e3o sacerdotal das minhas m\u00e3os. A b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e9 um sinal de contradi\u00e7\u00e3o \u2013 uma cruz de cinzas, desenhada com as palavras: \u201cLembre-se de que voc\u00ea \u00e9 p\u00f3 e ao p\u00f3 voc\u00ea voltar\u00e1\u201d.<br \/>\nComo pode a morte se tornar uma b\u00ean\u00e7\u00e3o? Parece-me que h\u00e1 uma conex\u00e3o entre a maneira como a morte desmascara completamente nosso amor por aqueles que perdemos e a maneira como contemplar nossa pr\u00f3pria mortalidade desmascara o amor pela vida que cada um de n\u00f3s recebeu.<br \/>\nAntes de ser cat\u00f3lico, eu pertencia a uma tradi\u00e7\u00e3o de f\u00e9 crist\u00e3 que n\u00e3o celebrava a Quaresma. Eu nunca soube o que estava faltando at\u00e9 ir \u00e0 minha primeira missa na Quarta-feira de Cinzas. \u00c9 um momento poderoso, quando um padre tra\u00e7a cinzas em voc\u00ea e profetiza que algum dia, de alguma forma, o t\u00famulo vai reivindicar seu corpo. Foi nesse mesmo ano que experimentei a Sexta-feira Santa, totalmente despreparado para o que aconteceria. O padre levou um crucifixo ao \u00faltimo degrau do santu\u00e1rio, onde o colocou em uma almofada de veludo vermelho. Os fi\u00e9is alinharam um a um e dobraram os joelhos no ch\u00e3o de pedra, inclinaram a cabe\u00e7a e beijaram os p\u00e9s do Deus moribundo. Foi a imagem da morte, a proximidade do crucifixo, que trouxe a quest\u00e3o de maneira clara e irrevog\u00e1vel para n\u00f3s: esse era o Deus que amamos e adoramos. A morte tornara nosso amor mais real.<br \/>\nH\u00e1 algo misterioso nessa conex\u00e3o entre morte e amor. Chega ao cora\u00e7\u00e3o de quem somos como seres humanos e o que significa ter almas eternas unidas a corpos que envelhecem e se desgastam. H\u00e1 uma bela passagem no romance de <em>Ursula Le Guin, The Dispossessed<\/em>, sobre como s\u00f3 vemos a verdadeira beleza de um objeto quando o vemos por inteiro. Ela escreve:<br \/>\n\u201cSe voc\u00ea pode ver algo inteiro, parece que \u00e9 sempre bonito \u2026 de perto, um mundo est\u00e1 todo sujo e com pedras. E dia a dia, a vida \u00e9 um trabalho dif\u00edcil, voc\u00ea se cansa, perde o padr\u00e3o. Voc\u00ea precisa de dist\u00e2ncia \u2026 A maneira de ver como a terra \u00e9 bonita \u00e9 v\u00ea-la como a lua. A maneira de ver como a vida \u00e9 bela \u00e9 do ponto de vista da morte.\u201d<br \/>\nA Quaresma pode ser uma experi\u00eancia desafiadora. O foco na penit\u00eancia e no jejum, nas cinzas e na mortalidade\u2026 \u00c9 como revisitar o anivers\u00e1rio de morte. No entanto, o esfor\u00e7o e a busca da alma valem a pena. Contemplar nossa mortalidade \u00e9 um exerc\u00edcio inestim\u00e1vel, porque revela toda a nossa vida \u2013 o come\u00e7o, o meio, o fim. A partir desse ponto de vista, estamos situados de maneira \u00fanica para compreender como a vida \u00e9 bela e preciosa. O amor \u00e9 a imagem do todo. Na vida, n\u00f3s amamos. Na morte, n\u00f3s amamos. Quer vivamos ou morramos, sempre pertencemos um ao outro.<br \/>\nVia <i>Aleteia<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morte e amor<\/p>\n","protected":false},"author":59,"featured_media":80295,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[746,8105,10039],"class_list":["post-80292","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-aniversario","tag-quaresma","tag-vida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/59"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80292\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}