{"id":80526,"date":"2020-03-19T11:03:55","date_gmt":"2020-03-19T14:03:55","guid":{"rendered":"https:\/\/auxcamp.salesianossp.org.br\/?p=80526"},"modified":"2020-03-19T11:03:55","modified_gmt":"2020-03-19T14:03:55","slug":"quaresma-gestos-exteriores-e-posturas-interiores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/quaresma-gestos-exteriores-e-posturas-interiores\/","title":{"rendered":"Quaresma: gestos exteriores e posturas interiores"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/i.ibb.co\/N2YvTmG\/jesus-3279880-640.jpg\" alt=\"jesus-3279880-640\" \/><br \/>\nComo posso fazer desta Quaresma uma Quaresma diferente? Sem d\u00favidas, a grande tenta\u00e7\u00e3o que surge neste momentos \u00e9 viver os tempos lit\u00fargicos especiais como se n\u00e3o tivessem nada de especial. Rezando a respeito lembrei de um epis\u00f3dio simples, mas que chamou a minha aten\u00e7\u00e3o sobremaneira\u2026<br \/>\nEm certo Centro de Evangeliza\u00e7\u00e3o, enquanto a Missa estava sendo celebrada, uma crian\u00e7a passou diante do presbit\u00e9rio e fez uma respeitosa rever\u00eancia ao altar. O seu piedoso gesto, que provavelmente aprendera obedientemente dos seus pais, gerou uma rea\u00e7\u00e3o de ternura nos presentes.<br \/>\nLogo ap\u00f3s a Missa, os objetos lit\u00fargicos (dentre eles, o altar) foram retirados para dar in\u00edcio a outra atividade. Em determinado momento, a mesma crian\u00e7a que fizera a v\u00eania ao altar durante a Missa, passou novamente diante do palco e, mesmo n\u00e3o tendo altar nenhum, fez a v\u00eania. O gesto despertou uma discreta risada no meio dos presentes.<br \/>\n<strong>O que nos diz esse epis\u00f3dio sobre a Quaresma?<\/strong><br \/>\nAquilo que parecia ser um gesto de piedade n\u00e3o passou de ser o cumprimento de uma regra fortalecido pela efic\u00e1cia do costume. Provavelmente lhe disseram os pais: \u201cQuando voc\u00ea passar por aqui, precisa fazer uma rever\u00eancia\u201d, e a crian\u00e7a, obediente, aprendeu aquilo que os pais orientaram. Contudo, sem pretender ignorar a condi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, podemos nos perguntar: ser\u00e1 que os pais da crian\u00e7a deram para ela pelo menos uma no\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, sobre o milagre que estava reverenciando, ou simplesmente se preocuparam com ensinar a crian\u00e7a o gesto externo?<br \/>\nN\u00e3o queremos avaliar a atitude dos pais, pois este texto n\u00e3o \u00e9 sobre a forma\u00e7\u00e3o espiritual dos filhos, antes, queremos nos perguntar: ser\u00e1 que isso acontece conosco? Ser\u00e1 que vivemos pr\u00e1ticas espirituais ou atos de piedade pela for\u00e7a do costume ou pelo mero cumprimento de uma regra? Por exemplo, quando fazemos a genuflex\u00e3o ao entrarmos numa igreja ou capela, lembramos que fazemos isso porque entramos no mesmo espa\u00e7o que um Rei e queremos render-lhe homenagem?<br \/>\nQuando erguemos os bra\u00e7os ou batemos palmas numa ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, simplesmente respondemos \u00e0 sonoridade e ritmo da m\u00fasica ou estamos orando com o nosso corpo? Quando, na fila da comunh\u00e3o, fazemos uma rever\u00eancia ou at\u00e9 nos ajoelhamos, o fazemos lembrando que vamos receber o pr\u00f3prio Deus dentro de n\u00f3s, ou o fazemos porque todo mundo faz? Quando pedimos a b\u00ean\u00e7\u00e3o dos alimentos, o fazemos para agradecer pela Provid\u00eancia de Deus que cuida de n\u00f3s, ou \u00e9 meramente uma conven\u00e7\u00e3o social que indica o in\u00edcio da refei\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<strong>Quaresma, a origem dos gestos exteriores<\/strong><br \/>\nTodos os momentos da vida espiritual (que \u00e9 intrinsecamente interior) s\u00e3o marcados por um gesto corporal (intrinsecamente exterior). Podemos dizer que os gestos exteriores t\u00eam a sua origem e raz\u00e3o de ser na espiritualidade. Esse princ\u00edpio e v\u00ednculo faz com que cada um destes gestos seja bom por natureza.<br \/>\nEfetivamente, os gestos exteriores fazem parte da composi\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica religiosa. Basta ver a vida de Jesus Cristo, cujas palavras e sinais iam sempre acompanhados por um gesto corporal. Este exemplo foi adotado pela Igreja desde os primeiros s\u00e9culos at\u00e9 os nossos dias. Na celebra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos, por exemplo, superabundam os gestos corporais que, por sua vez, est\u00e3o cheios de significado espiritual.<br \/>\nSe os gestos s\u00e3o naturalmente bons, o que h\u00e1 de negativo no exemplo que demos no in\u00edcio? O gesto sempre deve ir acompanhado do seu significado espiritual, caso contr\u00e1rio, \u00e9 esvaziado. Todavia, podemos afirmar que o gesto foi feito para permanecer cheio de significado. Se o gesto encontra seu princ\u00edpio no seu significado espiritual, o esvaziamento do gesto torna-se uma esp\u00e9cie de anula\u00e7\u00e3o da \u201craz\u00e3o de ser\u201d do gesto, ou do logos do gesto.<br \/>\nContudo, o verdadeiro logos de toda viv\u00eancia espiritual crist\u00e3, \u00e9 o Cristo, o logos de Deus. Consequentemente, a nega\u00e7\u00e3o do logos da espiritualidade \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Cristo. Em palavras mais simples, se Jesus \u00e9 a Palavra que preenche, o esvaziamento do gesto pode ser compreendido como uma nega\u00e7\u00e3o do mesmo. De forma ainda mais grave, podemos dizer que um gesto vazio significa uma n\u00e3o-encarna\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, como uma verdadeira nega\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o do \u201clogos que se fez carne\u201d.<br \/>\n<strong>Gestos esvaziados de sentido<\/strong><br \/>\nQual seria um bom exemplo de um esvaziamento do gesto? Os fariseus. Eles eram uma seita judaica nos tempos de Jesus, assim como os saduceus, ess\u00eanios e zelotas, por\u00e9m mereceram a repreens\u00e3o de Jesus de forma particular pela sua arrog\u00e2ncia e falta de convers\u00e3o interior. Jesus chamava-os constantemente \u201chip\u00f3critas\u201d, ainda exorta-os citando as Sagradas Escrituras quando diz: \u201cBem profetizou Isa\u00edas a respeito de v\u00f3s: este povo honra-me com os l\u00e1bios, mas o seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de mim; em v\u00e3o me prestam culto\u201d (Mc 7,6-7).<br \/>\nCom a mesma firmeza advertia seus disc\u00edpulos: \u201cCuidado! Guardai-vos do fermento dos fariseus\u201d (Mc 8,15). Os fariseus costumavam cumprir as leis ao p\u00e9 da letra e ensin\u00e1-las de forma rigorosa. \u00c9 necess\u00e1rio ressaltar que para os judeus dos tempos b\u00edblicos (inclusive para Jesus), a Lei n\u00e3o \u00e9 tida como algo ruim, antes \u00e9 vista como algo muito positivo e encontra-se no centro do juda\u00edsmo. O salmista canta com j\u00fabilo: \u201cA lei do Senhor \u00e9 perfeita\u201d (Sl 19\/18, 8), e ainda: \u201cEis que venho fazer com prazer a vossa vontade, Senhor\u201d (Sl 39).<br \/>\nPara o povo de ent\u00e3o, o cumprimento da Lei n\u00e3o \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o nem opress\u00e3o, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a forma mais excelente de amar a Deus. Vale ressaltar que Jesus nunca repreendeu os fariseus pelas suas pr\u00e1ticas, antes os repreendeu porque estas estavam esvaziadas de sentido. Os gestos externos como o d\u00edzimo, jejuns e ora\u00e7\u00f5es, n\u00e3o eram acompanhados da postura interior sincera, antes procuravam vangl\u00f3ria e privil\u00e9gios.<br \/>\n<strong>Quaresma, a a\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o \u00e9 exterior<\/strong><br \/>\nOra, nos profetas, come\u00e7a a se compreender que a a\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o \u00e9 meramente exterior e que n\u00e3o se expressa somente em terras e vit\u00f3rias militares. Deus manifesta o desejo da mesma resposta do seu povo nas pr\u00e1ticas: \u201cAmor eu quero e n\u00e3o sacrif\u00edcios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos\u201d (Os 6, 6).<br \/>\nEste movimento de interioriza\u00e7\u00e3o da Lei n\u00e3o anula as pr\u00e1ticas externas, mas as solidifica numa base profunda e sincera por parte do povo. Em Jeremias, Ezequiel e Oseias, o conhecimento de Deus \u00e9 apresentado como a via para Deus e como meta a aspirar por todos: \u201ctodos me conhecer\u00e3o, dos menores aos maiores\u201d (Jr 31,34). Consecutivamente o conhecimento de Deus e do seu amor deve levar o povo \u00e0 convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDesta forma, o cumprimento das normas surge como uma consequ\u00eancia da mudan\u00e7a interior: \u201cPorei no seu \u00edntimo um esp\u00edrito novo: removerei do seu corpo o cora\u00e7\u00e3o de pedra e lhes darei um cora\u00e7\u00e3o de carne, a fim de que andem de acordo com os meus estatutos e guardem minhas normas e as cumpram\u201d (Ez 11,19-20).<br \/>\n<strong>A perfei\u00e7\u00e3o da Lei<\/strong><br \/>\nA grande novidade trazida por Cristo \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o da Lei, um dos temas mais pol\u00eamicos na sua prega\u00e7\u00e3o. O Senhor deixa claro: \u201cn\u00e3o penseis que vim revogar a Lei ou os profetas. N\u00e3o vim revog\u00e1-los, mas dar-lhes pleno cumprimento\u201d (Mt 5,17). Nesse \u2018dar pleno cumprimento\u2019 esconde-se aquilo que \u00e9 possivelmente a mensagem central de Jesus: o amor. Cristo n\u00e3o muda nada da Lei, de fato Ele reafirma: \u201cn\u00e3o ser\u00e1 omitido nem um s\u00f3 i, uma s\u00f3 v\u00edrgula da Lei, sem que tudo seja realizado\u201d (Mt 5,18), mas Ele vem apresentar o amor como a perfei\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia desta Lei, pois \u201co amor \u00e9 a plenitude da Lei\u201d (Rm 13,10).<br \/>\nLonge de apresentar propostas relativistas ou um relaxamento das exig\u00eancias da Lei, Jesus vem apresentar o caminho pleno, que inclusive \u00e9 mais exigente do que a Lei em si. Em Mateus, no cap\u00edtulo 5 do vers\u00edculo 20 ao 48, temos uma s\u00e9rie de ressalvas por parte de Jesus sobre a viv\u00eancia da Lei, com a conhecida f\u00f3rmula: \u2018ouvistes que foi dito\u2026 eu por\u00e9m vos digo\u2026\u2019 Desce aqui Jesus em v\u00e1rias das Leis estabelecidas por Mois\u00e9s e nos convida a viver acima desta Lei. Veremos que a Lei de Jesus \u00e9 muito mais exigente do que a Lei de Mois\u00e9s. Dessa forma, no tempo da quaresma recebemos a gra\u00e7a de lutarmos por essa viv\u00eancia interior.<br \/>\nCompreendemos que esta \u2018nova Lei\u2019 vivida no amor corresponde ao tempo da gra\u00e7a, vivido na quaresma, ao dia do Senhor. Jesus, falando sobre o div\u00f3rcio, lembra que Mois\u00e9s deu cabimento a algumas atitudes pela dureza do cora\u00e7\u00e3o do homem, mas que no princ\u00edpio n\u00e3o era assim. Com a express\u00e3o \u2018no princ\u00edpio\u2019 n\u00e3o se refere a alguma lembran\u00e7a hist\u00f3rica, mas se refere ao G\u00eanesis e \u00e0 Lei natural de Deus, a condi\u00e7\u00e3o do homem antes do pecado. Cristo mostra que h\u00e1 normas que Deus permitiu o homem viver, mas que j\u00e1 \u00e9 chegado o tempo de viver mais alto, a perfei\u00e7\u00e3o no amor, atrav\u00e9s do Cristo que \u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o do pecado.<br \/>\n<strong>Quaresma, o Amor n\u00e3o apaga a Lei<\/strong><br \/>\nO Amor n\u00e3o apaga a Lei, nem poupa de nenhuma das suas exig\u00eancias, ao contr\u00e1rio, ele pede mais. \u00c9 preciso primeiro viver a Lei para poder viver o amor. Segundo Jesus, o amor est\u00e1 acima da Lei. A Lei torna-se assim, em Cristo, uma base para o amor. O amor \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o da Lei, ent\u00e3o, como poderei viver o amor se n\u00e3o consigo viver em primeiro lugar a Lei? O convite de Jesus \u00e9 exigente e radical.<br \/>\nCristo mostra o amor real ofertando a sua vida na Cruz, e chama a viv\u00ea-lo, comunicando-o em forma de mandamento: \u201cdou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei\u201d (Jo 13,34). Neste contexto da \u2018nova lei\u2019, Jesus n\u00e3o s\u00f3 se coloca ao n\u00edvel de Mois\u00e9s que \u00e9 profeta (que fala em nome de Deus), mas se coloca ao n\u00edvel do autor da Lei, o pr\u00f3prio Deus.<br \/>\nH\u00e1 fariseus que fizeram a sua experi\u00eancia com Cristo, dentre os quais destaca Nicodemos, por\u00e9m, provavelmente o testemunho mais marcante talvez seja de S\u00e3o Paulo, que de fariseu, defensor rigoroso da Lei (a ponto de condizer com a morte de Estev\u00e3o), passou a ser o Ap\u00f3stolo do Amor, aquele que proclamou: \u201ctudo me \u00e9 permitido, mas nem tudo me conv\u00e9m\u201d (1Cor 6,12). Esta frase, central na teologia moral paulina, indica que existindo ou n\u00e3o uma lei que exer\u00e7a autoridade sobre o indiv\u00edduo, \u00e9 necess\u00e1ria a ades\u00e3o pessoal ao plano de Deus e evitar aquilo que n\u00e3o convenha para se tornar um novo homem em Cristo.<br \/>\nTalvez esta possa ser a Quaresma da uni\u00e3o entre gestos exteriores e posturas interiores. N\u00e3o \u00e9 bom que deixemos as pr\u00e1ticas exteriores, mas que as preenchamos com espiritualidade e ora\u00e7\u00f5es agrad\u00e1veis a Deus.<br \/>\nPor Juan Jos\u00e9 L\u00e9niz Ulloa, via <a href=\"https:\/\/www.comshalom.org\/quaresma-gestos-exteriores-posturas-interiores\/\">Comunidade Shalom <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quaresma<\/p>\n","protected":false},"author":59,"featured_media":80529,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[4152,7785,8105],"class_list":["post-80526","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-espiritualidade","tag-praticas","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/59"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80526"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80526\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}