{"id":80570,"date":"2020-03-23T09:41:51","date_gmt":"2020-03-23T12:41:51","guid":{"rendered":"https:\/\/auxcamp.salesianossp.org.br\/?p=80570"},"modified":"2020-03-23T09:41:51","modified_gmt":"2020-03-23T12:41:51","slug":"a-alegria-na-quaresma-do-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/a-alegria-na-quaresma-do-coronavirus\/","title":{"rendered":"A alegria na Quaresma do coronav\u00edrus"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/i.ibb.co\/DQxdLRz\/blur-1867402-640.jpg\" alt=\"blur-1867402-640\" \/><br \/>\nDesde o s\u00e9culo XIX, a humanidade experimenta cada vez mais sua \u201cemancipa\u00e7\u00e3o\u201d das for\u00e7as da natureza. A ci\u00eancia e a t\u00e9cnica, com os avan\u00e7os na medicina, no saneamento b\u00e1sico, na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, nos transportes e comunica\u00e7\u00f5es, nos permitem viver cada vez mais e melhor que nossos antepassados. Nos vemos distantes de um mundo em que as fam\u00edlias perdiam muitos filhos por doen\u00e7as na inf\u00e2ncia; onde a comida podia facilmente faltar \u00e0 mesa por conta de um inverno rigoroso; as ruas fediam, com lixo, esgoto e agentes infecciosos por toda parte. Contudo, esse foi o mundo durante cerca de 90% da hist\u00f3ria do cristianismo.<br \/>\nNaquele contexto, compreende-se que a rela\u00e7\u00e3o do povo crist\u00e3o com Deus fosse marcada pelo sofrimento, o medo e o desconhecimento. A arte sacra e a religiosidade popular se conduziam para um pietismo que valorizava o Cristo sofredor, como se a Sexta-feira Santa n\u00e3o antecedesse o Domingo da Ressurrei\u00e7\u00e3o. A teologia at\u00e9 cunhou um termo, o \u201cDeus das lacunas\u201d, para designar um entendimento de tudo aquilo que a ci\u00eancia e a raz\u00e3o n\u00e3o conseguiam explicar (as lacunas de conhecimento) como vontade aleat\u00f3ria de Deus.<br \/>\nA supera\u00e7\u00e3o dos limites da natureza, nos tempos atuais, estimulou a ideia de nossa autossufici\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a Deus. As lacunas do conhecimento estariam sendo superadas pela ci\u00eancia; a dor e o sofrimento pelos avan\u00e7os da medicina. At\u00e9 a fome e a pobreza \u2013 frutos de rela\u00e7\u00f5es injustas na sociedade \u2013 estariam sendo superadas pelo desenvolvimento econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico. N\u00e3o haveria mais motivo para rezar, para pedir a prote\u00e7\u00e3o e a luz de um Outro.<br \/>\n<strong>A volta ao tempo da dor e da morte<\/strong><br \/>\nO termo latino fanum indica o lugar do altar, onde se fazia a oferenda sacrifical ao deus. O pro-fanum seria o espa\u00e7o que se estende \u00e0 frente do fanum, onde ficavam os que n\u00e3o tinham rela\u00e7\u00e3o direta com a divindade. Nos ritos antigos, muitas vezes a assembleia nem mesmo tinha acesso visual ao fanum (separado, no templo judeu, pelo v\u00e9u que se rasgou no momento da morte de Jesus, cf. Mt 27, 51).<br \/>\nPor analogia, poder\u00edamos dizer que vivemos, cada vez mais, num tempo profano (pro-fanum), onde \u201ccomemos e bebemos, casamos e nos damos em casamento\u201d (cf. Lc 17, 27-28), isto \u00e9, vivemos mergulhados em nossas preocupa\u00e7\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es, voltados a projetos de poder, sonhos de consumo ou mesmo atividades altru\u00edstas \u2013 sem olharmos o mist\u00e9rio do mundo. Mas, quando chega a morte, quando temos que lidar com a dor da perda da pessoa amada ou com nossa pr\u00f3pria finitude, somos como que imersos no tempo do fanum, onde nossos olhos se abrem para nossa fragilidade diante da imensid\u00e3o do universo, do des\u00edgnio de Deus sobre n\u00f3s.<br \/>\nGrandes desastres naturais, como terremotos, tsunamis e pandemias, nos obrigam a um mergulho coletivo nesse tempo do fanum, questionando nossa autossufici\u00eancia, olhando a n\u00f3s mesmos como aqueles que \u201cest\u00e3o vivendo nas trevas e na sombra da morte\u201d (Lc 1, 79). Nesse sentido, nossa Quaresma de 2020, dominada pelo coronav\u00edrus, \u00e9 um tempo de gra\u00e7a particular: talvez em nenhuma outra ocasi\u00e3o teremos nossa finitude t\u00e3o escancarada a nossa frente. Todas as ilus\u00f5es de autossufici\u00eancia, todos os avan\u00e7os da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, se mostram fr\u00e1geis e limitados diante de um v\u00edrus que aterra e dobra as maiores pot\u00eancias militares, paralisa as economias mais ricas e confunde os cientistas mais brilhantes.<br \/>\n<strong>Uma doce alegria diante do medo<\/strong><br \/>\nNessa Quaresma de 2020, vivemos como numa longa Quarta-feira de Cinzas, na qual nos lembramos continuamente que \u201csomos p\u00f3 e ao p\u00f3 retornaremos\u201d (cf. Gn 3, 19). Esse \u00e9 um poderoso est\u00edmulo para a contri\u00e7\u00e3o e a convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, mas poderia nos levar a um err\u00f4nea volta ao passado, a uma rela\u00e7\u00e3o com Deus novamente marcada pelo temor e pela inseguran\u00e7a. Se assim for, ser\u00e1 uma experi\u00eancia pouco incidente na mentalidade contempor\u00e2nea, a ser esquecida quando a pandemia passar.<br \/>\nSanto Agostinho, por conta de sua obra cl\u00e1ssica, Confiss\u00f5es, foi interpretado por alguns como um moralista que s\u00f3 pensava em pecados. Se assim fosse, ele n\u00e3o teria sido o grande santo cat\u00f3lico que foi. Agostinho n\u00e3o estava fixado em seus erros, mas na miseric\u00f3rdia de Deus. Quanto mais falava de suas faltas, mais ficava fascinado com o tanto que Deus o amava, apesar de seus pecados. \u00c9 com esp\u00edrito semelhante que somos chamados a viver esse tempo de prova\u00e7\u00e3o por causa do coronav\u00edrus.<br \/>\nO Papa Francisco escreveu: \u201cO amor de Deus \u00e9 a raz\u00e3o fundamental de toda a cria\u00e7\u00e3o [\u2026] Cada criatura \u00e9 objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo. At\u00e9 a vida ef\u00eamera do ser mais insignificante \u00e9 objeto do seu amor e, naqueles poucos segundos de exist\u00eancia, Ele envolve-o com o seu carinho\u201d (Laudato si\u2019, LS 77). Num primeiro momento, pode parecer que o Papa se refere a insetos, protozo\u00e1rios e (vejam s\u00f3!) at\u00e9 v\u00edrus. Mas, se olhamos melhor, veremos que isso tamb\u00e9m vale para n\u00f3s. Diante de Deus eterno e infinito e do universo por Ele criado, tamb\u00e9m somos seres pequenos e insignificantes, que vivem nesse mundo numa fra\u00e7\u00e3o infinitesimal da eternidade. Pequenos e fr\u00e1geis, morremos pelos erros e desmandos de outros humanos t\u00e3o insignificantes quanto n\u00f3s, pela a\u00e7\u00e3o de grandes for\u00e7as da natureza ou de pequenos microrganismos ainda menores do que n\u00f3s\u2026<br \/>\nMesmo assim, naqueles poucos instantes de nossa exist\u00eancia, Deus nos envolve com seu carinho! Essa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma Quaresma para nos arrependermos de nossos pecados. Tamb\u00e9m isso, mas talvez o mais importante seja, diante de nossa pequenez e fragilidade, compreendermos ainda mais o qu\u00e3o grande \u00e9 o Seu amor por n\u00f3s. E ent\u00e3o, a Quaresma do coronav\u00edrus ser\u00e1 o tempo da doce alegria dos que se sabem muito amados.<br \/>\nVia <i>Aleteia<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quaresma<\/p>\n","protected":false},"author":59,"featured_media":80573,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[90,6183,8105],"class_list":["post-80570","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-coronavirus","tag-medo","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/59"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80570"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80570\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/salesianossp.org.br\/parnsacampinas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}