Uma memória extraordinária

João Bosco estabilizou-se em seus estudos em Chieri, agora na quarta classe. Já se completavam dois meses nesta sala e tudo ia muito bem. Até que um fato fez com que João chamasse novamente a atenção de seu professor e de seus colegas.

Ele conta nas “Memórias do Oratório de São Francisco de Sales” que um dia o Pe. José Cima estava explicando a vida de Agesilau – um famoso rei da história grega – usando o livro de Cornélio Nepos (um importante biógrafo e historiador romano).

Bosco, porém, havia esquecido esse livro no dia. Para “disfarçar” o esquecimento, ficou com um outro livro aberto à sua frente, o Donato (uma famosa gramática de latim). Os colegas que sentavam mais perto de João perceberam o que ele estava fazendo e começaram a rir, primeiro discretamente e depois escancaradamente.

O professor quis saber o que estava acontecendo e, como todos olhavam para João, mandou que ele explicasse o que estava sendo falando em aula. Convicto, Bosco levantou-se, e sempre segurando o outro livro nas mãos, repetiu de cor o texto, a construção e a explicação, como se estivesse com o livro correto em sua frente. Os colegas não puderam conter a admiração e os aplausos.

O Pe. José Cima também não conteve os ânimos: enfureceu-se, porque era a primeira vez que não conseguia manter a disciplina em sua classe. Tentou dar um safanão em João, evitado por um desvio de cabeça. Pegou à força o livro e pediu explicação da bagunça para os outros estudantes. Um, mais corajoso, disse:

– Bosco estava desde o início com o Donato nas mãos, e leu e explicou como se fosse o livro de Cornélio.

O professor, ainda com o livro em suas mãos, pediu que João continuasse um pouco mais a explicação. E então disse:

– Pela sua feliz memória perdôo-lhe o esquecimento. Tem sorte. Procure servir-se bem dela.

Algumas outras coisas estranhas aconteceram em Chieri, devido à memória excelente de João. Os fatos eram tão raros que alguns colegas julgavam que não podiam ser resultado apenas do talento de João… Algo extraordinário deveria acontecer também!

Conta-se, por exemplo, que em uma noite sonhou que o professor havia passado um trabalho para toda a classe. Logo ao despertar, saltou da cama e se pôs a escrever o que havia sonhado, um ditado em latim. Mais tarde, traduziu o mesmo texto com a ajuda de um sacerdote amigo. Aconteceu que, na manhã seguinte, o professor passou em classe um trabalho sobre o mesmo tema que João havia sonhado. Sendo assim, sem usar o dicionário e nem gastar muito tempo, escreveu o seu trabalho, tal como lembrava do sonho. Havia acertado tudo! Questionado pelo professor, expôs todo o conteúdo com ingenuidade, causando uma grande admiração em todos!

Em uma outra ocasião, João entregou tão rápido seu trabalho, que acabou gerando uma desconfiança no professor. Um garoto não podia resolver tantos problemas gramaticais em tão pouco tempo. Leu mais algumas vezes o trabalho de João com muita atenção e se admirava em ver um trabalho tão bem feito.

Para poder se certificar melhor que não havia nenhuma fraude, o professor pediu o rascunho de João. Ao ver, mais uma grande surpresa. Como o texto era muito grande, o professor havia ditado apenas a metade. Entretanto, no caderno de João, já encontrava-se o texto inteiro, sem uma sílaba a mais e nem a menos. O que havia acontecido? Não era possível que ele tivesse copiado tão rápido (naquela época ainda não havia internet! rs…).

Pressionado, João confessa: eu sonhei!

Estas histórias foram passadas e chegaram até os tempos do oratório. Os meninos de Valdocco espalhavam entre si estes contos a respeito de seu querido pai. Perguntado sobre eles, Dom Bosco nunca os negou. Mais que isso, Dom Bosco contava outras histórias de semelhante tom extraordinário. De maneira alguma contava estas coisas para se exaltar. Dom Bosco era humilde e a humildade aborrece a mentira. Suas narrações tinham sempre e unicamente o objetivo de educar os seus jovens para a virtude. Eram histórias revestidas de uma tal simplicidade que atraía os corações.

Ao final daquele ano escolar (1830-1831), João passou para o terceiro ano ginasial, com boas notas em seu histórico.

Pe. Glauco Félix Teixeira Landim, SDB
Animador das dimensões Vocacional, Missionária e de Evangelização e Catequese da Pastoral Juvenil Salesiana
E-mail:   [email protected] / Facebook: www.facebook.com/glaucosdb

 

ESPAÇO VALCOCCO – CAPÍTULOS

Capítulo 1: Espaço Valdocco: somos Dom Bosco que caminha

Capítulo 2: Um começo de vida marcado pela pobreza e por uma fatalidade

Capítulo 3: Uma mãe corajosa, amorosa e cheia de fé

Capítulo 4: Antônio, José e João: três irmãos muito diferentes

Capítulo 5: O início dos estudos de João Bosco e o começo dos conflitos familiares

Capítulo 6: Um sonho que ficou gravado profundamente na mente

Capítulo 7: Um sonho que é memória e profecia

Capítulo 8: Um sonho que envia um pastor para os jovens

Capítulo 9: Um saltimbanco de Deus

Capítulo 10: Deus tomou posse do teu coração

Capítulo 11: A fúria de Antônio

Capítulo 12: Um lugar com a família Moglia

Capítulo 13: Uma experiência rica de família e trabalho

Capítulo 14: Um tempo para aprender a falar com Deus

Capítulo 15: Um amigo inesperado

Capítulo 16: Um pai para Joãozinho Bosco

Capítulo 17: Um desastre que desfalece as esperanças

Capítulo 18: “O vaqueiro dos Becchi” retorna para a escola

Capítulo 19: Mais dificuldades na escola de Castelnuovo

Capítulo 20: Um amigo para toda a vida

Capítulo 21: “Se eu for sacerdote, serei muito diferente”

Capítulo 22: Férias em Sussambrino

Capítulo 23: O sacrifício de pedir ajuda

Capítulo 24: Chieri, uma cidade repleta de história, piedade e estudos

Capítulo 25: O início dos estudos em Chieri

Capítulo 26: Uma memória extraordinária

Capítulo 27: O cuidado de João em escolher suas amizades

Capítulo 28: A Sociedade da Alegria: uma maneira de evangelizar os colegas

Capítulo 29: O cultivo da espiritualidade na Sociedade da Alegria

Capítulo 30: João Bosco, filho de Maria Santíssima e testemunho da santidade para os seus colegas

Capítulo 31: O ano escolar de 1832-1833: a crisma de João Bosco e a ordenação do Pe. Cafasso

Capítulo 32: O amigo Luís Comollo

Capítulo 33: Um trabalho exigente no Café Pianta

Capítulo 34: Uma presença que causava admiração e fazia a diferença

Capítulo 35: A amizade e a conversão do judeu Jonas

Capítulo 36: Um jovem com muitos talentos e habilidades

Capítulo 37: Crise vocacional de João Bosco e a decisão de fazer-se franciscano

Capítulo 38: “Deus te prepara outro lugar, outra messe”

Capítulo 39: O Pe. Cinzano, instrumento da providência divina no caminho vocacional de João Bosco

Capítulo 40: O dia em que João Bosco recebeu a batina

Capítulo 41: E João finalmente entra no seminário

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