Na manhã desta sexta-feira, dia 27 de fevereiro, o Abrigo Dom Bosco celebrou o seu Jubileu de Prata com uma programação especial, ao reunir colaboradores, parceiros, autoridades e atendidos, em 25 anos de dedicação ao acolhimento de catadores, inspirados pelo carisma de Dom Bosco.
Mantido pelo Liceu Coração de Jesus, o Abrigo consolidou, ao longo de sua trajetória, uma atuação pautada no compromisso social e na promoção da dignidade humana, tornando-se referência no atendimento à população em situação de vulnerabilidade.
A celebração teve início com um momento de acolhida e de confraternização, seguido da oração conduzida pelo Padre André Luiz Simões, ecônomo inspetorial e diretor-presidente do Liceu Coração de Jesus, e pelo Irmão Vitor Aladic, ecônomo da mantenedora.
A abertura oficial foi realizada pelo gerente do Abrigo, Rafael Bressan Olivério, que destacou a importância da história construída coletivamente ao longo de duas décadas e meia de missão. Em seguida, o Inspetor, Padre Alexandre Luís de Oliveira, dirigiu sua palavra aos presentes, ressaltando a identidade salesiana da obra e a fidelidade ao carisma no cuidado e na promoção social.




Parceria e missão
A celebração destacou também a importância da parceria entre o Liceu Coração de Jesus e a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), fundamental para a continuidade e o fortalecimento dos serviços prestados.
A analista de Assistência e Desenvolvimento Social e gestora de parceria do Abrigo nos anos de 2021 e 2022, Renata Cardozo, destacou a relevância da articulação entre a organização da sociedade civil e o poder público para assegurar atendimento qualificado e políticas públicas eficazes à população atendida.
Memória, gratidão e protagonismo
A história do Abrigo foi recordada por Regina Lopes de Oliveira Pina, primeira gerente da unidade, que esteve à frente da obra por mais de 17 anos e contribuiu decisivamente para a sua consolidação. Na sequência, os presentes foram convidados a conhecer a apresentação do “Varal de Fotos”, emocionando os participantes ao revisitar momentos marcantes da caminhada institucional.






As comemorações também contaram com apresentações culturais protagonizadas pelos atendidos, acompanhados pela orientadora socioeducativa Janaina dos Santos Conceição. As expressões artísticas evidenciaram o potencial transformador da proposta socioeducativa desenvolvida cotidianamente no Abrigo, representando o acolhimento salesiano.
Após um momento de convivência fraterna e visita aos espaços da unidade, a programação foi retomada com a apresentação da realidade atual da obra. O gerente Rafael Bressan Olivério e a assistente social Viviane Maria de Brito partilharam dados, desafios e perspectivas, reafirmando o compromisso com a qualificação permanente do atendimento e com a promoção da autonomia dos acolhidos.
O encerramento da celebração contou com as palavras finais do Irmão Vitor Aladic e a bênção conduzida pelo Padre Cássio Rodrigo de Oliveira, diretor da presença salesiana dos Campos Elíseos.



Presença educativa, evangelizadora e promotora de dignidade
Ao celebrar os seus 25 anos, o Abrigo Dom Bosco reafirma a sua missão de continuar “acolhendo catadores com o coração salesiano”, renovando o compromisso de ser presença educativa, evangelizadora e promotora de dignidade no contexto urbano da cidade de São Paulo. Uma presença significativa e decisiva na vida da Nájila, de 35 anos, que expressou a reconquista da diginidade como uma das principais contribuições que o Abrigo Dom Bosco lhe proporcionou: “eu fui super acolhida, né? Me senti muito bem e eu estava, num momento, precisando na minha vida. Eu acho muito interessante participar das atividades aqui porque a gente faz uma roda, aí a gente dá a nossa opinião, cada um dá a sua opinião em relação ao que é falado ali, na hora, e para mim é muito gratificante porque eu me sinto, assim, como é que fala? Com a dignidade próxima. Tô reconquistando a minha dignidade. Aí vai me dar mais ânimo, mais vontade e expectativa na vida. Outra conquista, vou falar por mim, pessoalmente, é ter uma ‘caminha’ para deitar. Foi muito gratificante. Toda hora que eu me sinto assim, meio sozinha, com alguns problemas, eu me deito. E antes eu não tinha esse privilégio de ter uma cama ‘pra’ me deitar. E teve também um benefício que eu recebi, né? Vou começar a receber todo mês, graças a Deus e graças a aqui, os Salesianos do Abrigo Dom Bosco. E eu estou pensando em futuramente alugar um cantinho ‘pra’ mim, né? Que seja um cômodo pra me sentir mais à vontade, ter a minha privacidade, ter as minhas conquistas em bens materiais. Sobre Dom Bosco, eu tenho em mente que ele foi um padre, né, que ele ajudava bastante às pessoas mais vulneráveis. Então, para mim, ele foi um padre excelente, que, se ele estivesse vivo, eu iria querer acompanhá-lo e aprender muito com ele”.

O Márcio Allan, de 48 anos, também é atendido no Abrigo e falou sobre o espaço como uma oportunidade que ele “abraçou de coração” e de como ele, Márcio, mudou a forma de olhar para o futuro: “aqui foi uma oportunidade que eu abracei mesmo, de coração. E apesar que eu tive uns probleminhas de saúde, né, de mobilidade, mas, mesmo assim, eu continuo reciclando, com um pouco menos de frequência, mas coleto umas latinhas, uns carrinhos menores, mas continuo na área de reciclagem. E, também, o Abrigo oferece, tipo, um ambiente tranquilo e organizado ‘pra’ gente efetuar esse tipo de trabalho, né? Então, depois que eu conheci o abrigo, mudou bastante: meu cabelo mudou muito, o estilo de vida; a gente olha com um olho melhor, olha ‘pro’ futuro mais do que ‘pro’ passado. Vivia em situação pior na calçada, debaixo de chuva e tal. Agora, estar aqui ajudou muito em todas as áreas, vamos dizer assim, né? Então, ‘pro’ futuro, meu, eu pretendo aproveitar essa força que tá dando aqui o abrigo ‘pra’ gente, ‘pra’ adquirir até uma moradia própria. Se inscrevendo nos órgãos públicos ou até buscando autonomia. Quem sabe, até lá, consiga dar uma entrada no terreno ou até numa casinha, no apartamento que é da gente. Essa é a finalidade no final de tudo”.

Histórico
Fundado em 23 de fevereiro de 2001, o Abrigo Dom Bosco nasceu da iniciativa dos salesianos da comunidade do Liceu Coração de Jesus, diante da realidade de vulnerabilidade social que historicamente marca a região do bairro Campos Elíseos, no centro da capital paulista. Inicialmente, o espaço foi destinado ao acolhimento de pessoas em situação de rua, especialmente trabalhadores da coleta de materiais recicláveis, que encontravam no local um ambiente seguro para repousar e guardar suas carroças. Ao longo dos 25 anos de atuação, a instituição ampliou a sua estrutura e qualificou os seus serviços, com destaque para a inauguração do dormitório em 2009, a implantação de espaços para triagem de recicláveis e a consolidação de parcerias com o poder público, empresas e estabelecimentos comerciais do entorno.
Segundo Rafael Bressan Olivério, gerente do Abrigo Dom Bosco, “a missão da instituição vai além de oferecer moradia temporária, alimentação e condições básicas de higiene. O serviço busca promover a autonomia dos acolhidos por meio do acompanhamento socioassistencial, da regularização de documentos, dos cuidados com a saúde, da qualificação profissional e da inserção no mercado de trabalho. Entre as iniciativas, destaco a parceria com condomínios, restaurantes e estabelecimentos comerciais da região, que disponibilizam materiais recicláveis para coleta pelos próprios acolhidos, o que lhes garante integralmente os recursos obtidos com a comercialização. Com permanência prevista de 18 a 36 meses, o Abrigo trabalha na perspectiva de ser uma porta de saída da vulnerabilidade social, oferecendo condições para que cada pessoa reconstrua sua trajetória e conquiste independência financeira e pessoal”, destaca.

Ao celebrar seu Jubileu de Prata, Rafael destaca que o principal diferencial do Abrigo está na acolhida inspirada no carisma de Dom Bosco, fundamentada no respeito, na proximidade e no cuidado integral com cada pessoa. Mesmo diante da diversidade religiosa dos atendidos, a espiritualidade salesiana se manifesta nas relações cotidianas, no acompanhamento individualizado e na construção de vínculos de confiança. Para o gerente, “o legado de Dom Bosco ganha significado especial quando os próprios acolhidos reconhecem, na história do santo, a atenção dedicada às pessoas em situação de vulnerabilidade e se percebem como parte da Família Salesiana. Havia uma preocupação de como contextualizar a história de Dom Bosco à trajetória de cada um deles, por ser São João Bosco o pai e mestre da juventude. Mas eles mesmos encontram essa referência, quando um dos nossos acolhidos disse: ‘ele [Dom Bosco] também trabalhava com pessoas em situação de rua’, quando falamos da história de Dom Bosco com os jovens, em Turim, na Itália, e da criação do Oratório. Inserido em um território ainda marcado por profundas desigualdades sociais, o Abrigo reafirma, após 25 anos de história, o compromisso dos salesianos com a transformação social e, sobretudo, com o reconhecimento da dignidade de cada pessoa acolhida”, completa.
O Abrigo possui capacidade para acolher diariamente 55 pessoas, entre homens e mulheres. Além de moradia temporária, alimentação e condições de higiene, oferece acompanhamento socioassistencial, atendimento técnico, oficinas socioeducativas e orientações individuais e coletivas. A instituição também disponibiliza espaços para o estacionamento das carroças e um canil para os animais de estimação dos acolhidos, reconhecendo a importância desses vínculos na vida dos trabalhadores. As atividades desenvolvidas buscam favorecer a inserção no mercado de trabalho, o acesso à educação e a conquista da moradia autônoma ou o retorno ao convívio familiar.
De acordo com o Relatório Social 2025, a instituição atendeu 109 pessoas ao longo do ano, sendo 96 homens e 13 mulheres, além de acompanhar cinco famílias. A atuação contou com 13 colaboradores e dez voluntários, responsáveis por um trabalho que totalizou 34.890 atendimentos, incluindo 32.850 refeições e lanches servidos. Entre os beneficiários, 72,5% eram adultos de 30 a 59 anos e 22% eram idosos com mais de 60 anos.
Para a manutenção de suas atividades, o Abrigo captou R$ 1.164.705,16 em 2025. Desse montante, R$ 810.060,70 (69,55%) foram provenientes do poder público; R$ 341.499,79 (29,32%), da mantenedora; R$ 4.289,31 (0,37%), de parcerias e doações; e R$ 8.855,36 (0,76%), de receitas financeiras. Os recursos foram destinados à manutenção da equipe, à infraestrutura e à execução dos projetos sociais, garantindo a continuidade dos serviços oferecidos à população atendida.

Além do acolhimento, o Abrigo desenvolve iniciativas voltadas à sustentabilidade ambiental e à valorização do trabalho dos catadores. Entre elas, destaca-se o projeto Carroças do Futuro, realizado em parceria com uma instituição privada, que busca modernizar as condições de trabalho por meio da utilização de carroças elétricas, reduzindo o esforço físico e proporcionando maior segurança aos trabalhadores. A instituição também promove ações de coleta seletiva em condomínios, comércios e estabelecimentos da região, contribuindo para a destinação adequada de resíduos recicláveis e a geração de renda.
Por meio dessas iniciativas, o Abrigo Dom Bosco, há 25 anos, articula acolhimento, educação, assistência social e responsabilidade socioambiental, reconhecendo os catadores como agentes fundamentais para a sustentabilidade urbana. Sua atuação expressa o compromisso salesiano com a promoção integral da pessoa humana e com a construção de oportunidades para que cada acolhido possa desenvolver sua autonomia e reconstruir seu projeto de vida.