6º Congresso de Educação Social reúne educadores para refletir sobre novas fronteiras

29/09/2026
Texto: Eduardo Freire
Fotos: Giuliano Celms e Daniel Ricci

Realizado na Obra Social Dom Bosco, em Itaquera, encontro promoveu formação, diálogo e troca de experiências sobre os desafios contemporâneos da Educação Social.

A Obra Social Dom Bosco, em Itaquera, São Paulo – SP, recebeu, no dia 25 de setembro, o 6º Congresso de Educação Social, que neste ano teve como tema “Novas Fronteiras e o Papel do Educador Social”. O encontro reuniu educadores sociais e profissionais das obras sociais salesianas, além de representantes de diferentes instituições, para um dia dedicado à formação, à reflexão e à troca de experiências sobre os desafios que marcam a atuação socioeducativa no contexto atual.

Promovido a partir da compreensão da Educação Social como uma prática construída nos territórios e nas relações, o Congresso propôs um olhar atento às transformações que atravessam a sociedade e repercutem diretamente no trabalho de quem atua com crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos, famílias e comunidades.

Ao longo da programação, os participantes foram convidados a refletir sobre o papel do educador social diante de diferentes realidades e sobre a necessidade de renovar práticas, linguagens e estratégias para acompanhar as novas demandas sociais.

Para o Padre Aramis Francisco Biaggi, Diretor da Obra Social Dom Bosco, a realização da sexta edição representa a continuidade de um compromisso com a formação dos educadores sociais e com o protagonismo juvenil, princípios fundamentais da pedagogia salesiana: “uma alegria realizar este 6º Congresso. A gente acolheu uma média de 800 pessoas e seguimos aquilo que Dom Bosco fez, ao proporcionar o protagonismo juvenil, para que os jovens possam aprender, ensinar e levar adiante. É isso que queremos que nossos educadores sociais tenham vivenciado, essa segurança de assimilar aquilo que aprendemos hoje, passar para os nossos educandos, para que sejam iguais ou melhores do que nós, e para que os jovens possam fazer desse mundo algo muito melhor do que está sendo apresentado para eles”.

Padre Rosalvino Morán Viñayo, fundador da Obra Social Dom Bosco, agradeceu a presença de todos e todas e destacou a importância da realização de mais uma edição do Congresso. Ao melhor estilo do carisma salesiano e da Escola de Samba Dom Bosco de Itaquera, Rosalvino expressou sua nota ao evento: “Nota 1000 mil!!!!”.

Três novas fronteiras para a Educação Social
A programação do 6º Congresso foi organizada a partir de três grandes perspectivas: Existências e Trajetórias Humanas; Cuidado e Inclusão; e Culturas Digitais e Tecnológicas.

A primeira temática colocou em evidência as diferentes histórias e trajetórias humanas, propondo uma reflexão sobre as diversas etapas da vida e sobre a importância de reconhecer cada pessoa em sua singularidade, considerando seus sonhos, desafios, vulnerabilidades e potencialidades.

A segunda fronteira abordou questões relacionadas ao cuidado, à inclusão, à diversidade e à saúde mental, destacando a importância da escuta, do acolhimento e da construção de ambientes educativos capazes de valorizar as diferenças e fortalecer vínculos.

Já a terceira temática trouxe para o centro da reflexão as transformações provocadas pelas tecnologias e pelas culturas digitais. As novas formas de comunicação, as redes sociais e os avanços tecnológicos, incluindo a inteligência artificial, foram considerados a partir de seus impactos sobre as relações humanas, os processos educativos e a atuação dos educadores sociais.

As diferentes abordagens contribuíram para ampliar a compreensão sobre os territórios nos quais a Educação Social está presente e sobre as novas fronteiras que desafiam os profissionais a repensarem continuamente a sua atuação.

A definição das temáticas partiu das necessidades identificadas pelos próprios educadores e educadoras das obras sociais salesianas, aproximando a proposta formativa dos desafios vivenciados cotidianamente nos espaços socioeducativos. Jéssica Silva, Coordenadora da Comissão da Ação Social Inspetorial, destacou a importância desse processo participativo na construção da programação: “o Congresso foi muito especial, principalmente por saber que todas as temáticas foram trazidas pelos educadores. Questões, dificuldades do dia a dia; e a gente conseguiu traduzir. Especial por isso, por poder trazer o que eles realmente precisam, que é a ação na prática. Então, é possível conciliar, mesmo com todas as dificuldades que a gente enfrenta, as barreiras, a nossa pedagogia salesiana, do observar, do escutar, do agir e, principalmente, ouvir o jovem, nos possibilita caminharmos juntos e vencer essas fronteiras”.

Painel de Trilhas
O Painel de Trilhas reuniu especialistas das áreas de Educação, Comunicação, Tecnologia e Direito para uma mesa-redonda dedicada à reflexão sobre os desafios contemporâneos da atuação socioeducativa. A atividade contou com a participação de Diego Amaro de Almeida, Duílio Fabbri Junior e Antonio Sávio da Silva Pinto, sob a mediação da professora Rita Maria Lino Tarcia.

Alinhado ao tema central do Congresso, “Novas Fronteiras e o Papel do Educador Social”, o painel propôs uma abordagem interdisciplinar, relacionando diferentes campos do conhecimento às transformações sociais, culturais e tecnológicas que impactam o cotidiano dos educadores sociais.

A participação de Diego Amaro de Almeida, historiador, mestre em História Social pela PUC-SP e coordenador dos cursos de História e Pedagogia do UNISAL, campus Lorena, trouxe ao debate a perspectiva da formação docente, da inovação educacional e das transformações provocadas pela inteligência artificial. Sua experiência na formação de professores em diferentes regiões do Brasil, aliada à atuação em redes de cooperação e inovação, ofereceu subsídios para refletir sobre as possibilidades e os desafios da incorporação de novas tecnologias às práticas socioeducativas, sem perder de vista a dimensão humana da educação.

Duílio Fabbri Junior, reitor do UNISAL, doutor em Linguística e pesquisador nas áreas de Comunicação, Tecnologia e Inclusão, refletiu sobre uma perspectiva voltada às transformações dos processos comunicacionais e às novas formas de produção e circulação da informação. Sua trajetória acadêmica e profissional, especialmente nos campos da comunicação digital, das narrativas transmídia e da convergência midiática, permitiu relacionar as mudanças no ambiente comunicacional às novas competências exigidas dos educadores sociais, particularmente no diálogo com crianças, adolescentes e jovens inseridos em uma sociedade cada vez mais conectada.

Complementando essas perspectivas, Antonio Sávio da Silva Pinto, advogado e professor do UNISAL, campus Lorena, apresentou uma abordagem relacionada à ética, aos direitos da pessoa com deficiência e à legislação brasileira de inclusão. Sua experiência na formação de profissionais, articulando os marcos legais aos valores do Sistema Preventivo de Dom Bosco, contribuiu para aprofundar a reflexão sobre a responsabilidade dos educadores sociais na promoção da acessibilidade, na garantia de direitos e na construção de ambientes educativos inclusivos.

Sob a mediação da professora Rita Maria Lino Tarcia, a mesa-redonda foi estruturada como um espaço de articulação entre essas diferentes perspectivas, favorecendo o diálogo entre os convidados e a aproximação dos conteúdos com a realidade dos profissionais presentes.

Formação que dialoga com a prática
Além dos momentos de reflexão e de aprofundamento, o Congresso também proporcionou experiências práticas aos participantes. A programação da tarde contou com oficinas, vivências, rodas de conversa e atividades pedagógicas, aproximando os conteúdos apresentados das situações encontradas no cotidiano dos espaços socioeducativos.

A proposta possibilitou aos participantes compartilhar experiências, conhecer diferentes perspectivas e refletir sobre possibilidades concretas de atuação. Dessa maneira, o encontro buscou estabelecer uma relação entre formação e prática, valorizando os saberes construídos pelos próprios educadores em seus diferentes contextos de trabalho.

A presença de palestrantes e facilitadores de diferentes áreas também contribuiu para a diversidade de olhares ao longo da programação, fortalecendo o caráter interdisciplinar da Educação Social.

Para a professora Alcina Maria da Conceição, membro da equipe organizadora e vice-presidente da Associação Unidos por Artur Alvim, uma das entidades parceiras do evento, um dos aspectos fundamentais do Congresso foi justamente a possibilidade de ultrapassar o campo acadêmico e transformar as reflexões em ações concretas: “nós precisamos trabalhar isso, a democratização do conhecimento, porque esse trabalho não pode ficar só no campo acadêmico. Nós temos que trazer para a sociedade de uma forma prática. E um congresso como esse, tendo a oportunidade de unir os jovens, os educadores, os educandos, discutindo esses temas, é o que nós precisamos em todos os nossos setores”.

Entre os desafios abordados, a relação entre tecnologia e humanidade ocupou um espaço significativo nas discussões. A presença cada vez maior dos recursos digitais e do advento da Inteligência Artificial no cotidiano exige dos educadores novas competências, mas também atenção à preservação das relações humanas que fundamentam o trabalho socioeducativo.

Cristiane Vitale, Diretora Executiva da Obra Social Dom Bosco, reforçou a importância de encontrar esse equilíbrio diante das transformações tecnológicas: “nós temos que unir a tecnologia e o lado humano. Esse é o grande desafio e não tem como escapar mais. A inteligência artificial está posta. Estamos na geração do celular, da internet. Então, a gente tem que encontrar quais são os limites e quais são as fronteiras nesse contexto todo, para que a gente não perca a nossa humanidade”.

Protagonismo juvenil: hackathon transforma desafios sociais em propostas de inovação
A reflexão sobre as culturas digitais e tecnológicas também ganhou uma dimensão prática por meio de um hackathon, realizado durante o Congresso com a participação de jovens das obras sociais salesianas de pelo menos oito cidades do interior e da capital paulista.

A atividade foi conduzida pela equipe do Departamento de Informática em Saúde (DIS) da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e propôs aos participantes um desafio: como a tecnologia pode contribuir para solucionar problemas vivenciados por eles próprios em suas comunidades?

Organizados em equipes de cinco a sete participantes, com idades entre 11 e 31 anos, os jovens identificaram desafios sociais, desenvolveram propostas de solução e apresentaram seus projetos ao plenário. Para muitos, a atividade representou o primeiro contato com metodologias de inovação.

Ao todo, quatro equipes apresentaram propostas relacionadas a questões presentes no cotidiano das juventudes.

A equipe “Diga não ao bullying” propôs a criação de um site informativo voltado ao enfrentamento dessa prática. Já a “InovaThon” desenvolveu a ideia de uma plataforma digital para o registro de denúncias relacionadas à falta de acessibilidade no transporte público, utilizando a tecnologia como instrumento de participação social.

O grupo “Sociedade da Alegria” abordou o enfrentamento ao preconceito racial e propôs a inclusão de uma disciplina sobre racismo nas escolas, com foco na educação antirracista. Por sua vez, a equipe “Friends” apresentou uma proposta de criação de canais públicos de distribuição de informações, buscando ampliar o acesso a conteúdos confiáveis e combater a desinformação.

As apresentações evidenciaram a capacidade dos jovens de identificar problemas de suas realidades e construir alternativas a partir de suas próprias experiências, colocando em prática o protagonismo juvenil defendido pela pedagogia salesiana.

Luíza Cristina Freire, integrante da equipe “Sociedade da Alegria”, compartilhou sua experiência na atividade e destacou a oportunidade de participar diretamente da construção de uma proposta de transformação social: “eu gostei muito do evento. Eu não esperava, achei bem diferente, inclusivo, ver esse outro lado das obras sociais e como isso inclui os jovens. O hackathon foi bem interessante porque pegar uma questão social que acontece diariamente e resolver um problema, como foi o caso do meu grupo, que a gente deu uma ideia sobre como combater o racismo com uma educação antirracista, é fundamental”.

Universidade e obras sociais: tecnologia a serviço da transformação social
A realização do hackathon contou com a parceria da Unifesp, por meio do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina, que integrou o apoio institucional ao Congresso ao lado de instituições como o Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL).

A equipe responsável pela facilitação reuniu profissionais e estudantes de diferentes áreas: as professoras Claudia Galindo Novoa, Chefe do Departamento de Informática em Saúde, e Rita Maria Lino Tarcia, Vice-Chefe da Disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação em Saúde; a servidora Andréa Pereira Simões Pelogi; o colaborador Silvio Penteado De Pra; Joanna Lopes Soares Ferreira, estudante da turma TS19 do Curso Superior de Tecnologia em Informática em Saúde da Unifesp; e as estudantes de Enfermagem Antonia Beatriz Souza e Rebeka Teles, da Universidade Nove de Julho.

A participação de estudantes universitários na condução da atividade favoreceu a aproximação entre a formação acadêmica e as realidades sociais dos jovens, demonstrando como os conhecimentos e as metodologias de inovação podem ser aplicados em diferentes contextos.

A iniciativa também se constituiu como uma experiência de extensão universitária, ao possibilitar que estudantes e profissionais compartilhassem conhecimentos e desenvolvessem práticas educativas junto aos participantes das obras sociais.

A professora Claudia Galindo Novoa, responsável pela condução do hackathon, explicou que a proposta integrou a formação dos jovens aos princípios de ensino, pesquisa e extensão que orientam a atuação da universidade pública: “o hackathon é um momento de muita reflexão. É um modelo de pitch. Seis minutos, vinte segundos cada slide. Tem que vender o peixe. O que é muito legal, porque isso é um desafio do dia a dia”.

A professora também destacou a importância de aproximar a produção acadêmica das necessidades da sociedade: “organizar essa maratona do conhecimento nada mais é do que um dos tripés da universidade, da Unifesp. A gente não está fazendo absolutamente nada fora daquilo que a gente tem que fazer, que é ensino na graduação, pesquisa, porque somos uma universidade pública. Ações extensionistas, trazendo aquilo que a gente faz dentro da universidade, que a gente descobre de novas técnicas, de inovação, e trazendo para cá, para uma obra social, é o perfil correto que a gente está fazendo, trazendo a universidade para fora do campus, e isso é fantástico”.

Compromisso salesiano com a Educação Social
A participação da Inspetoria Salesiana de São Paulo como parceira do Congresso reafirmou o compromisso da presença salesiana com a formação permanente dos educadores e com o fortalecimento das iniciativas voltadas à promoção social e educativa.

A proposta do encontro também dialogou com a missão educativo-pastoral salesiana, especialmente no compromisso de acompanhar crianças, adolescentes e jovens em suas diferentes realidades, reconhecendo suas potencialidades e contribuindo para a construção de novas oportunidades.

O Inspetor, Padre Alexandre Luís de Oliveira, destacou a atualidade das reflexões propostas no evento e a importância da ação educativa e evangelizadora diante das diferentes realidades sociais: “já nos tomou o espírito deste dia, deste Congresso, e trata-se de uma temática verdadeiramente atualíssima porque o saudoso Papa Francisco, quando nos ofereceu a expressão ‘periferias humanas’, já nos convocava a uma reflexão urgente, em um mundo globalizado, diverso; tão plural como o nosso. A ação salesiana, a ação educativa evangelizadora têm este serviço importante: aproximar de todos as possibilidades”.

Ao colocar em discussão as novas fronteiras, o Congresso reafirmou a importância de compreender o educador social como alguém que atua diretamente nas realidades e relações que constituem os territórios.

Nesse contexto, educar significa também estar presente, escutar, acolher, criar vínculos e construir caminhos junto às pessoas e comunidades. A atuação socioeducativa exige, portanto, disposição para compreender as mudanças sociais e culturais e, ao mesmo tempo, preservar aquilo que permanece essencial: a centralidade da pessoa e a construção de relações baseadas no respeito e na dignidade, como pontua a Professora Rita Maria Lino Tarcia, que conduziu a curadoria das temáticas desta 6ª edição: “o Congresso espelha a jornada do que estamos experimentando diante dos desafios da vida. Esse é um momento importante para ressignificar o nosso papel, os nossos sonhos e como nós estamos vivendo diante desses desafios. Nós começamos a nossa jornada com as fronteiras, desenhando esses territórios novos, fomos para as oficinas buscar ferramentas e retornamos para as nossas casas ressignificando quem somos, o que fazemos e como podemos transformar a vida de tantas pessoas”.

Essa perspectiva está diretamente relacionada à tradição educativa salesiana, que reconhece a presença, o acompanhamento e a relação educativa como elementos fundamentais para a promoção integral de crianças, adolescentes e jovens, especialmente daqueles que vivem situações de maior vulnerabilidade.

Para além de um espaço de atualização profissional, o encontro constituiu uma oportunidade para fortalecer vínculos entre pessoas e instituições que atuam na Educação Social e para reconhecer a importância de uma atuação articulada diante dos desafios contemporâneos.

A realização do Congresso deu continuidade a uma trajetória de encontros voltados à reflexão e à qualificação da Educação Social. Ao reunir diferentes experiências, conhecimentos e perspectivas, o 6º Congresso de Educação Social encerrou sua programação reafirmando o papel dos educadores como presença significativa nos territórios e na vida das pessoas.

As reflexões e experiências compartilhadas, especialmente aquelas protagonizadas pelos próprios jovens, reforçaram o compromisso de transformar os conhecimentos construídos durante o encontro em práticas educativas capazes de responder aos desafios das comunidades.

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